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quarta-feira, 29 de julho de 2015

"Flores em Vida" - João Marcos

Durante toda a minha vida, acreditei descriminado por ser um negro de família pobre, até o dia que minha mente mudou.

Todo dia eu acordo às seis horas da manhã e vou para meu trabalho, ando até o ponto e pego o ônibus às sete da manhã e tenho que obedecer ao meu chefe racista que faz questão de me mostrar que ele é um branco rico que foi e sempre será superior a mim em todos os aspectos. Hoje como sempre, foi a mesma coisa, porém, quando chego ao escritório, meu chefe me aborda:

- Olá, branquelo – Meu chefe diz com um tom de ironia – Como sua gente nunca faz nada direito, resolvi colocar uma supervisora para ver se você começa a fazer as coisa direito.

-Tudo bem, ela já está aqui?

- Não, essa supervisão será feita a distância... Meu chefe olha para a direita de sai andando – Ei, Japonês! Não é assim que se faz!

Com isso, perdi meu chefe de vista, fui para a minha sala e fiquei pensando que por mais que meu chefe fosse preconceituoso, colocar uma mulher com um cargo superior ao meu? Isso era inaceitável, era o cúmulo do absurdo, eu fiquei anos estudando para ser inferior a uma mulher?

Durante o resto do dia fiquei pensando sobre aquilo e cada vez que eu pensava que minha chefe seria uma mulher eu ficava mais enfurecido e pensava no quanto foi inútil eu ter estudado, afinal como meu conhecimento poderia ser usado comigo sendo liderado por uma mulher?

E o dia passou, com minha mente carregada de pensamentos negativos, eu fui ao ponto de ônibus, depois de aproximadamente trinta minutos esperando o ônibus, eu a vejo pela primeira vez, uma mulher com olhos de cor mel, cabelos castanhos e volumosos, um jeito de andar que eu nunca havia visto, era como se ela estivesse cantando uma canção a cada passo que ela dava, parecia que aquele dia péssimo que eu estava tendo simplesmente não houvesse existido, os problemas que eu tinha não existiam mais, aquela mulher que eu acabara de ver, havia encontrado o melhor de mim e pôs tudo para fora, aquela mulher que eu acabara de ver, mudou tudo, eu sabia exatamente o que havia acontecido, aquela mulher me deixou apaixonado por ela em menos de um minuto. Eu queria falar com ela, porém, as palavras não saiam da minha boca e a única coisa que eu pude falar foi:

- B-bom dia – Digo eu gaguejando intimidado com tamanha beleza.

- Bom dia! – Ela responde sorrindo, com uma voz incrivelmente doce e continua andando com uma felicidade contagiante.

Depois daquilo, não consegui falar mais nada para ela, meu ônibus chegou, entrei nele e a perdi de vista, apesar de estar chateado com meu chefe por ele ter colocado uma mulher como minha superior, eu já não conseguia sentir mais raiva dele, já não conseguia pensar em mais nada, minha mente estava presa e girando em volta daquela encantadora e misteriosa mulher. Quem era ela? O que ela fazia? Eu tinha muitas perguntas, mas não tinha resposta para nenhuma delas, e não fazia ideia de como achá-las e pensando nisso, chequei em casa e fui dormir.

Logo quando acordei, fiz o que eu estava acostumado a fazer, porém, tudo o que eu fazia, eu estava pensando na linda e misteriosa dama que eu vi no dia anterior, durante o resto da semana se procedeu a mesma coisa, eu acordando cedo, chegando ao trabalho, encontrando o aprendiz de Hitler que eu chamava de chefe, falava por telefone com aquela mulher ridícula que colocaram como minha supervisora e o pior, ela tentava se aproximar dos funcionários, coitada, não percebia que o lugar dela não era ali, achava que era tão boa quanto qualquer homem. Se não fosse trágico, seria cômico. Onde já se viu uma mulher em um cargo superior ao de um homem?

E durante toda a semana, minha mente só tinha dois polos, o ódio que eu sentia no trabalho e o amor que eu sentia pela mulher dos meus sonhos que eu vi quando estava acordado e que definitivamente, eu estava apaixonado.

Finalmente, o final de semana chegou, e eu fiquei vagando pela cidade á procura de minha amada, olhei no ponto de ônibus, em restaurantes, shoppings e até mesmo na internet, acabei encontrando o perfil dela em uma rede social, durante um tempo, eu fiquei olhando a foto dela, aqueles olhos cativantes que pareciam estar olhando diretamente para mim, cada informação sobre ela me fazia mais preso a ela, por fim, descubro que ela não passou no ponto de ônibus aquele dia por coincidência, ela frequentava um restaurante que era quase em frente ao ponto, eu não poderia receber noticia melhor e nossos horários batiam, eu poderia sair do trabalho e encontrá-la no restaurante e era isso que eu iria fazer, encontra-la e declarar todo o meu amor de uma vez, seria na segunda-feira.

O resto do sábado e o domingo pareciam durar uma eternidade, horas pareciam anos perante a minha ansiedade de encontrar o meu amor.

Enfim, a segunda chegou, esse era o grande dia, eu finalmente, encontraria a mulher da minha vida e nem precisaria ir muito longe.

Minha rotina imutável se fez presente, a única diferença é que meu chefe neonazista não estava lá e a irresponsável da minha supervisora não ligou, aposto que estava fazendo a unha e se esqueceu que tinha de trabalhar, aposto que deve estar em uma festa até agora, e depois reclama que foi violentada... Mulheres não devem sair à noite a menos que queiram ser violentadas.

Saí do meu trabalho com o meu coração batendo a mil por hora, comprei flores e fui ao restaurante, era um restaurante chique, gente branca, rica e bem vestida tomava conta do lugar, eles ficavam me olhando como se um negro não pudesse pagar por um copo d’agua ali, não me importei, sentei, pedi um prato simples e fiquei esperando minha amada, porém, ela não apareceu. Confesso que fiquei decepcionado.

Terça-feira chego ao trabalho, estava um reboliço terrível e eu pergunto o que havia acontecido, me falaram o que aconteceu, minha supervisora havia morrido no domingo, quando estava voltando de uma festa, ela foi estuprada e morta. Senti pena dela, mas ela procurou aquilo andando na rua sozinha, isso não é coisa de uma mulher responsável.

Ando pelos corredores do escritório e encontro um quadro de funcionário do mês:

“Funcionário do mês, Roberta Souza Barboza, por sua dedicação, respeito e bom convívio com todos os funcionários. Função: Supervisora à distância.”

Quando vejo a foto, um corte se cria em minha alma, a mulher que eu julguei inferior, era a mesma a que eu dei o meu amor. O enterro havia sido ontem, por isso meu chefe não veio para o trabalho, e por isso ela não foi ao restaurante. Infelizmente, tudo fez sentido. Depois disso, fui a minha sala e chorei por ter perdido para sempre o meu amor e também por que as coisas dela, que eu julguei tão inferiores, mesmo ela sendo mulher, superaram as minhas. A beleza dela, ridicularizou o meu machismo, a morte dela, destruiu o meu destino. Não pude lhe dar as flores em vida, mesmo sendo o que eu mais queria, e com um adeus, mesmo sem ser o ultimo, as flores, só pude lhe dar no túmulo.

Texto feito por João Marcos.

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