Fotógrafa retrata casos reais de crianças criadas por animais

Tocantes e, ao mesmo passo, perturbadoras, as imagens do recente projeto da fotógrafa alemã Julia Fullerton-Batten são semelhantes à cenas reais saídas de um “conto de fadas”.

A fotógrafa usa modelos e produções fotográficas para retratar a vida e a realidade de algumas crianças que cresceram em uma espécie de isolamento, tendo a companhia apenas de animais. "Há dois tipos de histórias: aquela em que a criança acabou se perdendo na selva e aquela em que o menor cresceu em sua própria casa, mas era tão negligenciado ou abusado que encontrou mais conforto com os animais do que com outros humanos", conta a fotógrafa. Conheça algumas dessas dramáticas trajetórias:


A imagem acima recria o caso da garota ucraniana Oxana Malaya, encontrada vivendo com cachorros em um canil, em 1991."Ela tinha 8 anos e já vinha vivendo naquela situação há seis anos. Seus pais eram alcoólatras e, uma noite, a deixaram para fora de casa. Em busca de calor e aconchego, a pequena Oxana foi para o canil e se aninhou junto aos vira-latas", conta Fullerton-Batten. "Foi provavelmente o que salvou sua vida."Oxana caminhava de quatro, arfava com a língua de fora, cerrava os dentes para estranhos e latia. Por causa da falta de interação humana, ela só conhecia as palavras "sim" e "não". Hoje, Oxana vive em uma clínica em Odessa e trabalha com os animais do lugar.


"Estas histórias estão longe de ser comparáveis com uma aventura de Tarzã", explica a fotógrafa. "Trata-se de crianças que tiveram que disputar comida com os animais, tiveram que aprender a sobreviver. Quando eu soube de suas vidas, fiquei em choque."

O projeto Feral Children ("Crianças Selvagens", em tradução literal) conta os casos de 15 crianças. As fotos são encenações produzidas com modelos. A imagem acima mostra Shamdeo, um garoto encontrado em uma selva da Índia em 1972, quando provavelmente tinha 4 anos de idade."Ele brincava com os filhotes de lobos, tinha a pele bem escura, dentes afiados, unhas longas e em forma de garras, cabelos emaranhados e calos nas palmas das mãos, cotovelos e joelhos", conta Fullerton-Batten. Shamdeo gostava de caçar galinhas, comia terra e tinha desejos de comer carne crua. Ele nunca falou, mas aprendeu a se comunicar com sinais. Morreu em 1985.


Segundo Mary-Ann Ochota, as crianças selvagens normalmente geram vergonha e sigilo em uma família ou comunidade. "Não são histórias felizes como Mogli – O Menino Lobo. São casos pungentes de negligência e abuso", explica a antropóloga."Esses casos se tornam possíveis quando há a trágica combinação de vício, violência doméstica e pobreza. São crianças que foram esquecidas, ignoradas ou escondidas", define. Segundo Fullerton-Batten, a menina Madina viveu entre cachorros do nascimento até completar 3 anos, compartilhando sua comida, brincando e dormindo com eles no inverno. Quando assistentes sociais a encontraram, em 2013, ela vivia nua, andava de quatro e rosnava. O pai de Madina saiu de casa assim que ela nasceu e sua mãe, de apenas 23 anos, passou a beber. "Ela estava o tempo todo bêbada e se sentava para comer à mesa enquanto a própria filha roía ossos com os cães no chão", conta a fotógrafa. Apesar do trauma, médicos e psicólogos julgaram que Madina estava saudável física e mentalmente. A menina foi colocada para adoção.



Apesar dos relatos pungentes, as imagens de Fullerton-Batten contam uma história de sobrevivência. "Todos os seres humanos precisam do contato com outros seres humanos, mas para essas crianças, a vida passou a ser regida pelo instinto de sobrevivência", diz. "Me pergunto se aqueles que contam com a companhia de animais selvagens não estão melhor do que as pessoas cuja infância foi passada sem nenhuma companhia."Ivan fugiu da família aos 4 anos, dando restos de comida à uma matilha de cães selvagens até se tornar uma espécie de líder do grupo. Ele viveu nas ruas por dois anos, antes de ser levado a um orfanato.Sua história é contada no livro Savage Girls and Wild Boys, de Michael Newton. "Foi um relacionamento que funcionou perfeitamente, muito melhor do que qualquer coisa que Ivan tenha vivido com outros humanos. Ele mendigava por comida e dividia tudo com a matilha. Em troca, dormia com eles nas longas e escuras noites de inverno, quando a temperatura despencava", escreveu o autor.

Fullerton-Batten espera que seu projeto ajude a conscientizar as pessoas sobre a situação dessas crianças.

Matéria por Italo Medeiros, revisada por Ana Maria.

Fonte: BBC Culture

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