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sexta-feira, 17 de junho de 2016

"Sociedade Sobre Rodas" - Mateus Amorim


Sociedade Sobre Rodas

Depois de ter saído cheiroso de casa, fui para o ponto de ônibus, esperar minha condução. O relógio cravava meio dia e eu ainda tinha a esperança de que conseguiria chegar ao meu destino em um ônibus vazio. Leda ilusão. Como já estava atrasado, resolvi subir naquele mesmo. O único objeto que ultrapassa e vai contra as leis da Física é o ônibus. Onde deveria ter uma única pessoa, se encontram sete, onde deveria ter um lugar para duas pessoas sentarem, tinham quatro. O ônibus que eu me encontrava estava cheio, mas não para tanto.

O ônibus é um lugar onde todos se reúnem para um grande teatro, mesmo sem perceber. É onde todas as nossas manias e defeitos são expostos para a plateia ali presente. Tenho a ideia que o motorista é a melhor pessoa do mundo, pois ali, quieto e conduzindo, presencia os defeitos da raça humana e sabe como deve se portar dali por diante. Ele é a plateia fixa que sempre vai estar ali para aplaudir ou vaiar a encenação da vida real.

            Depois de ser ignorado pelo motorista que deixou meu “Boa Tarde” se perder no vento, eu sentei num daqueles bancos do fundo e a minha direita tinha uma senhora de idade e a minha esquerda uma moça enterrada no celular. Nem todo motorista sabe acompanhar o que acontece na condução para se tornar alguém melhor, alguns apenas ignoram o manual quase que diário e são amargos e mal educados. Como eu disse, sentei-me ao lado da senhora e da moça ao celular. Mais tarde, ela passou do ponto por estar numa discussão calorosa por áudios. Sua privacidade se tornava pública cada vez que ela apertava o botão para pôr todas as pessoas à parte de sua relação. Sobre a velhinha? Ah, eu atraio idosas em ônibus, são aquelas que são ousadas e falam mal, falam bem, xingam, falam da vida dentro do ônibus e ensinam a muitos que se acham pensadores o que a vida pelo experiente olhar de uma senhora na casa dos setenta que se alimenta de amendoim.

            Sem contar as barraqueiras, os quietos, os escandalosos, os pedintes, os com palavreado menos utilizado, as gírias, as músicas, as pichações, os cacos de vidro. Ainda tem aqueles que se utilizam do coletivo para lucrar ou para ajudar alguém. Se bem que há aqueles que fingem ajudar para lucrar, ou os que fingem lucrar para ajudar. São criativos: falam inglês, cantam, usam gerúndios, roupas coloridas, alto falantes.

            Quando as portas do ônibus são abertas todos os tipos sociais, raciais, sexuais e de caráter diferentes entram e começam o teatro. Alguns te atraem para entender sua história, outros te repelem por mil motivos. Muitas são as figuras que seguem para seus muitos destinos. Ainda existem os espertos, como minha avó, que diz que pega ônibus por diversão. Mentira. Ela pega ônibus para que possa sempre reciclar suas ideias do mundo.

            Muitas foram as situações e os diálogos dentro daquele ônibus. Prometo escrevê-las em outra crônica, mas por esta chega. E pensar que essa foi só a ponta do iceberg que eu vi. Muitas são as outras sociedades ambulantes, teatros ambulantes, e muitas das vezes somos plateia sem notar. Aprendemos sem notar. Aplaudimos maus atores e vaiamos boas histórias. Agradeço a atenção dos senhores e sigam em paz na sua viagem. Desculpe ter atrapalhado o sossego de suas leituras.

Texto Feito por Mateus Amorim

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