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sexta-feira, 3 de junho de 2016

Turmas, séries, semana de provas: tudo isso faz menos sentido na Escola da Ponte, uma das mais inovadoras do mundo

Localizada no município de Santo Tirso, uma localidade bem pequena do norte Portugal, a 40 minutos da cidade do Porto, a Escola da Ponte, conhecida pelo seu caráter inovador ao abolir turmas fixas seriadas e as aulas expositivas, por exemplo, tem na simplicidade também uma das suas marcas no cotidiano de seus cerca de 250 estudantes.

Em 31 de maio, última terça-feira, saí de Coimbra com destino à Escola da Ponte para uma visita à escola. Essa visita guiada – e não poderia ser diferente – é realizada sempre por um menino e uma menina ambos estudantes da escola. Nenhum funcionário da escola veio falar conosco. E não seria mesmo de se achar isso estranho. As cerca de 2 horas que eu e mais algumas pessoas passamos lá, a maioria de brasileiros, foram todo o tempo coordenadas e orientadas por uma estudante chamada Clara e um rapazinho chamado Vasco, ambos com cerca de 11 anos de idade.

A Escola da Ponte corresponde aos 2 últimos blocos de um total de 5

A autonomia dos estudantes exercida de maneira ativa no processo de aprendizagem é a principal marca da Escola da Ponte. É uma escola na qual os alunos são colocados em face de exercer, na prática, a democracia de maneira direta no seu cotidiano. Nada mais justo, pois faria, ou faz, pouco sentido ensinarmos a importância dos valores democráticos às nossas crianças e jovens na teoria e não permitirmos que esta seja praticada no espaço da escola. Grade escolar prende; uniformes descaracterizam; semanas de prova provam pouca coisa. A pequena escola do interior de Portugal demonstra e simboliza que vale a pena enfrentar todos os desafios do presente.

Na teoria e na prática não há turmas, nem séries, nem ciclos. Os alunos estão divididos em três núcleos: iniciação, consolidação, aprofundamento. No início do ano letivo estes escolhem as suas áreas de estudo de preferência e, após isso, selecionam um professor tutor para lhes orientar nas atividades. Estas áreas estão relacionadas a algumas dimensões, como: artística, linguística, identitária, lógico-matemática, naturalista, pessoal e social. Outros grupos de trabalho vão sendo formados e desfeitos ao longo do ano letivo de acordo com os temas propostos e com o entrosamento dos estudantes entre si. A escolha dos conteúdos abordados dependem do que propõem os alunos de acordo com suas necessidades.

Mais uma dentre as pequenas-grandes inovações que a Escola da Ponte traz é a sua relação com o seu entorno, com a comunidade local e com as mães, pais e responsáveis dos estudantes. Ambos são os maiores parceiros em potencial da educação hoje. Mais do que ONG´s, associações, institutos e empresas, os pais e a comunidade local têm na qualidade da educação recebida pelos estudantes o seu maior objetivo. A Associação de Pais é uma das instituições responsáveis, de fato, por gerir a escola. Junto desta Associação de Pais há também uma Assembleia dos Estudantes, autônoma e soberana em suas decisões, sem a participação de responsáveis, funcionários ou professores e composta necessariamente de uma aluna ou aluno de cada turma, tendo que que obedecer o critério de 50% de meninas e 50% de meninos no total dos representantes.

Os estudantes também escolhem, individualmente, um membro da comunidade escolar, dentre professores e funcionários, para ser seu colaborador (tutor) nos processos de ensino e aprendizagem, em nível comportamental e também para ajudar a decidir a melhor maneira de avaliar a assimilação dos conteúdos de tudo o que foi sendo desenvolvido ao longo do ano. E para uma série de tarefas são formados grupos de 4 estudantes que agem de forma colaborativa entre si.

Colaboração entre os alunos no processo de aprendizagem

A Escola da Ponte também não possui paredes entre o que seriam as salas de aula. Isso mesmo: são divisórias móveis que podem ser abertas ou fechadas de acordo com as necessidades da atividade proposta àquele momento, sendo que uma das divisórias está todo o tempo aberta para permitir a circulação dos professores entre os mais diferentes grupos de alunos.

José Pacheco, o educador português idealizador e fundador da Escola da Ponte vive hoje no Brasil indo atrás e apoiando as iniciativas inspiradas na pequena escola do interior de Portugal. Influenciado pelos maiores pensadores em educação do Brasil, como Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e Paulo Freire, Pacheco reconhece que o Brasil é um vasto campo de experimentação e de novidades em educação, mas que ainda enfrenta a burocracia das secretarias de educação e do MEC. (Clique aqui para saber mais)

Prof. José Pacheco

Por fim, cabe chamar atenção, ainda, para o fato de que a educação básica em Portugal está a cargo do governo central do país, o que no Brasil falaríamos Governo Federal. É claro que o país europeu possui inúmeros problemas e desafios a serem enfrentados – talvez o principal hoje seja a baixa taxa de natalidade que tem feito com que algumas escolas do interior não consigam sequer abrir novas turmas devido à baixa e às vezes, nenhuma procura. Entretanto a qualidade da escola onde uma criança portuguesa irá estudar depende pouco ou quase nada do código postal (CEP) de onde ela nasceu! Por serem de responsabilidade do governo central, a estrutura das escolas tem garantido um padrão mínimo de qualidade, bem como há um plano de carreira unificado para os professores. No Brasil, a educação básica – Ensino Fundamental e Ensino Médio – estão a cargo dos governos municipais e estaduais, respectivamente, o que gera uma desigualdade muito grande entre uma escola e outra. Antes, e mesmo concomitantemente a uma grande reforma curricular e de uma revolução no padrão de ensino tal qual é o que nos traz a Escola da Ponte, o Governo Federal deveria ser o grande garantidor, em nosso país, deste padrão mínimo de qualidade da estrutura das escolas e de um plano nacional de carreira docente que atraísse mais pessoas, dentre as mais qualificadas, para o professorado. (Clique aqui para saber mais).

Todos os educadores e estudantes já gostam da Escola da Ponte antes mesmo de conhecê-la. Tudo o que ela simboliza e representa nos traz mais ânimo para continuar acreditando no poder transformador que a educação pode e deve ter na vida das pessoas. Muitas famílias de outras partes de Portugal se mudam para Santo Tirso para matricular seus filhos na Escola da Ponte. Mas o ideal é que todas essas inovações estejam cada vez mais perto e acessíveis a cada um de nós. A Escola da Ponte deve se ser entendida cada vez menos como um espaço físico e mais como um jeito de ser e de fazer a educação, de fato, acontecer. Se educadores brasileiros, com suas ideias, inspiraram de algum modo a sua criação, desejamos que hoje ela inspire as transformações que a educação brasileira tanto necessita. A Escola da Ponte antecipa o futuro. Vamos partilhar cada vez mais essas boas ideias. Uma hora elas se tornam realidade.

Matéria feita por Prof. Leonardo Almeida
Professor no Intercultural Brasil-Estados Unidos e atualmente estudando na Universidade de Coimbra em Portugal

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