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sábado, 2 de julho de 2016

"Adolescência" - Yasmim Freitas


Uma coisa engraçada da adolescência é que, apesar de ser possivelmente a época mais rica em transições, revoluções e reviravoltas que qualquer um de nós chega a ter na vida, já que não apenas não temos o controle de muitas das coisas que nos acontecem (quando se tem 16 anos não se pode escolher a casa onde se mora, o colégio onde se estuda, o curso de inglês que se faz ou que fotos suas vão ou não ser exibidas quando as visitas chegam na sua casa) como também estamos num momento de diversas transições pessoais (emos viram grunges, que viram hipsters, que viram metaleiros, que viram pagodeiros, que resolvem mudar o nome pra um símbolo como se fossem o Prince), ela consegue ser ao mesmo tempo a época das decisões mais contundentes, das opiniões mais fortes, das convicções mais firmes.

Conhecemos uma banda e temos certeza que ela vai ser a nossa favorita pra sempre, comemos um prato e não duvidamos em nada que poderíamos viver só daquilo pra vida toda, fazemos amigos e temos certeza que eles vão estar ao nosso lado até no nosso leito de morte, vamos numa festa americana e concluímos que qualquer possibilidade de felicidade que a gente venha a ter reside na Fernandinha da 7ªA e nenhuma outra garota nunca mais fazer com que a gente se sinta como no dia daqueles amassos no fundo do pátio. Não que gastemos muito tempo nisso, mas temos um senso de convicção pessoal de tudo que nos cerca que nunca mais vamos conseguir ter de volta, já que crescer envolve basicamente sair do mundo dicotômico em que “a minha turma é legal e a outra turma é composta apenas por babacas” para o mundo cheio de tons de cinza no qual você precisa entender que a sua turma erra, a outra turma tem lá suas motivações e no final todo mundo vai ter que pagar os mesmos 27,5% de imposto de renda, fora o que é retido na fonte, não dá pra fugir.

E é mais ou menos nesse período que entram nas nossas vidas as músicas tristes. Afinal, numa época em que cada fora é um coração partido, cada “não” é um rejeição pessoal que nunca vai ser superada – ao menos não até domingo que vem – e cada volta pra casa de mãos dadas ou beijo roubado atrás de um armário no corredor é o início de um romance épico que atravessará os tempos – ao menos até a próxima quarta – começamos a sentir falta de uma trilha sonora que represente isso, que embale os momentos de fossa imatura, que possa fazer fundo pras horas deitado na cama pensando em porque ela disse não e se isso significa realmente que sua vida pessoal terminou antes do segundo grau começar.

E ainda que todos tenham as suas preferências de fossa, que podem ir desde Radiohead até Beyoncé (algumas fossas são mais animadas que outras, não vamos julgar), eu sempre achei que poucas bandas representavam mais a fossa adolescente, a fossa de base, a fossa de raiz, a fossa de pés descalços cujo grande sinal de depressão era se trancar no quarto, não jantar direito e ficar totalmente desconcentrado na hora de jogar international superstar soccer deluxe (“au-au”) com os amigos do que Travis. E mesmo no padrão Travis de fossa adolescente, que ofereceu petardos como “Why does it always rain on me”, o título de canção mais depressivo da história; ou “The humpty dumpty song”, a única música que me faz lacrimejar apenas de escrever seu título (sério), acho que nenhuma chega perto de “Writing to reach you”.

Não sei bem se pelo ar de canção escrita no quarto durante as férias, se pela autopiedade sem nenhum traço de ironia, se pelo refrão que consiste numa grande sequência de negativas (“cause I’m writing to reach you now/but i might never reach you/only want to teach you about you/but that’s not you”) ou se pela sensação geral que todas as canções do Travis passam de que ninguém na banda nunca foi ou será feliz e que o mundo é um lugar frio, cruel, onde as mulheres são más, os caras são bullies e todos nós vamos passar a manhã inteira no ponto, debaixo de chuva, porque nossos ônibus nunca vão chegar, mas existe algo nessa música que pra mim resume tudo de hiper-dramático que apenas as fossas adolescentes (e as fossas que algumas pessoas adultas tem como se ainda fossem adolescentes) conseguem ter.

Mas a verdade é que nunca mais, depois de adultos, conseguimos realmente ser de novo assim. Ainda ficamos tristes, claro, ainda curtimos fossas, com certeza, ainda sofremos pelas coisas e ainda temos domingos chuvosos nos quais simplesmente não queremos sair da cama, mas existe sempre aquele toque de auto-ironia, aquela pegada de “ok, não é tão sério assim”, aquele quê de “na boa, ninguém aqui tem 15 anos, levanta”. A gente acaba crescendo e, entre as coisas que a gente acaba deixando pra trás, está a capacidade de se sentir real e exatamente como em músicas feito “Writing to reach you”. A não ser, é claro, que você seja o Leoni. Porque sério, eu imagino que esse cara se sinta assim todos os dias. Não deve ser fácil.

Texto feito por Yasmim Freitas, revisada por João Marcos

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